
O avião encostou em Confins às quatro da tarde e eu tirei o telefone do modo avião ainda na pista. Vinte e três mensagens. A minha tia Neusa tinha mandado três, todas em áudio, a primeira às cinco da manhã.
"Sofinha, chegou? Que dia você vem aqui em casa? Porque domingo tem o almoço, mas se você não puder domingo a gente faz sábado, ou eu passo na sua mãe, mas aí você avisa que eu levo o frango."
Eu ainda não tinha desafivelado o cinto.
No carro, descendo a Linha Verde, minha mãe dirigindo e falando sem parar, eu abri o resto. Uma prima avisando que mudou de casa e agora é longe. Uma amiga da faculdade perguntando se dava pra marcar alguma coisa antes do dia 20, porque depois ela viaja. O meu padrinho, que não usa WhatsApp, tinha mandado recado pela minha mãe: passar lá, sem falta, ele está mais devagar esse ano.
Eu tinha guardado quatorze dias pra isso. No Reino Unido a lei garante 5,6 semanas de férias por ano, o que dá 28 dias pra quem trabalha cinco dias por semana, e o meu contrato conta os feriados dentro desse número. Então eu tinha passado o ano inteiro fazendo aritmética: não emendar o Natal, não tirar nada em maio, aguentar agosto inteiro trabalhando enquanto Londres finalmente estava boa, tudo pra chegar em dezembro com duas semanas cheias na mão.
Quatorze dias. Vinte e três mensagens. Eu não tinha nem chegado em casa.
Levei quatro dias pra entender que aquelas duas semanas já estavam todas ocupadas antes de eu pousar.
A agenda que você não escolheu
Existe uma diferença entre viajar e ser distribuído.
Quem mora fora e volta uma vez por ano não faz férias no Brasil. Faz uma turnê. Cada pessoa que te ama tem direito a um pedaço, e o pedaço é justo, e você concorda com todos eles, porque cada um esperou o mesmo tanto que você esperou. O problema nunca é uma pessoa. É a soma delas.
No terceiro dia eu já estava com uma nota no celular. Sábado almoço tia Neusa, domingo aniversário atrasado do meu afilhado, segunda o médico com a minha mãe porque ela marcou pra quando eu estivesse aqui, terça a amiga que viaja dia 20, quarta o padrinho, quinta a outra tia que vai perguntar por que eu fui na primeira antes dela.
Eu olhei aquela lista e senti uma coisa que me deixou meio envergonhada de sentir: cansaço. Cansaço de gente que eu amo, antes mesmo de ver a maioria delas.
Você atravessa o Atlântico para virar item na agenda de todo mundo, inclusive na sua.
Todo mundo mudou de endereço, de emprego e de assunto
A parte que ninguém te avisa é que você não volta pro lugar que deixou. Você volta pro lugar como ele ficou depois de um ano sem você.
Meu afilhado tinha crescido onze centímetros e agora tem vergonha de mim nos primeiros vinte minutos de cada visita. A padaria da esquina virou pet shop. A minha melhor amiga trocou de emprego em abril e eu descobri por foto no Instagram, e quando ela contou os detalhes na mesa do bar eu percebi que estava sendo atualizada, não incluída. São coisas diferentes e dá pra sentir a diferença no corpo.
Tem um momento específico que acontece em toda mesa de família: alguém começa uma história e para no meio pra te explicar quem é o personagem. "A Márcia, você lembra da Márcia? Do prédio da sua avó. Enfim, a Márcia..." Aquela pausa de dois segundos é a coisa mais educada e mais dolorida da viagem inteira. Eles estão te acolhendo. E pra te acolher, precisam primeiro te situar.
Ninguém fez nada errado. A vida continuou porque a vida continua. Só que você passou o ano imaginando um lugar parado, e chegou num lugar que andou.
Você não perde o Brasil de uma vez. Perde em atualizações pequenas que ninguém pensou em te mandar.
A conta de quem você não viu
No sétimo dia eu já estava fazendo contabilidade moral.
Tinha três pessoas na lista que eu não ia conseguir ver, e eu sabia quais eram, e ficava adiando a mensagem dizendo isso. Uma delas era a Camila, que foi minha dupla de estágio na faculdade e que mora agora em Contagem, quarenta minutos de trânsito que eu não tinha. A gente remarcou duas vezes. Na segunda ela respondeu "imagina, você tá com pouco tempo, ano que vem a gente vê", e aquela frase é tão generosa e tão definitiva ao mesmo tempo.
Porque ano que vem ela não vai perguntar. Não por mágoa. Por realismo. As amizades que a gente mantém de longe morrem assim, sem briga e sem data, num acúmulo de "ano que vem a gente vê".
Vou ser honesta sobre uma coisa que eu evitei encarar por muito tempo: parte dessa lista eu escolhi. Dava pra ter cortado um almoço de família e visto a Camila. Eu não cortei, porque família cobra e amizade não cobra, e eu fui pelo caminho que gerava menos conversa difícil. Chamar isso de falta de tempo seria generoso comigo. Foi ordem de prioridade, e a ordem era minha.
A amizade de longe não acaba num dia. Acaba num remarcado que ninguém remarca.
Os dias que sobraram pra você
Zero.
Eu tinha planejado, lá de Londres, em julho, olhando pela janela do escritório: ia passar dois dias na serra, sem ninguém, só eu, café passado na hora e o silêncio que só tem lá. Passei o ano com essa imagem na cabeça. Foi ela que me segurou em fevereiro, quando o sol se põe antes das cinco e a cidade fica cinza por seis semanas seguidas.
Não fui. Nem cheguei perto.
O que eu consegui foi uma quinta-feira à tarde em que eu disse que tinha reunião de trabalho, e não tinha. Fiquei deitada no sofá da minha mãe, com a televisão ligada num programa que eu não estava vendo, ouvindo o barulho da rua que é o barulho certo, e dormi quarenta minutos. Menti pra minha família pra conseguir dormir na casa da minha mãe. Foi o melhor pedaço da viagem e eu tive que roubar.
E aqui vai a opinião que eu defendo, mesmo sabendo que muita gente vai discordar: duas semanas todo ano é o pior formato possível. Se você tem alguma escolha, vá três semanas de dois em dois anos. Duas semanas é curto demais pra desacelerar e longo demais pra ser só uma passada rápida, então você fica no pior dos dois, correndo com a sensação de que está devendo. Três semanas tem uma coisa que duas não têm: a primeira semana pode ser desperdiçada. E é na semana desperdiçada que a viagem começa.
Sobre isso de o corpo levar mais tempo que a agenda pra atravessar, eu já tinha escrito quando falei do dia em que você para de converter. Vale pros dois sentidos. Na volta também tem conversão, e ela também demora.
A volta
No aeroporto, na despedida, a minha mãe fez o que ela sempre faz, que é começar a arrumar minha mala de novo na fila do check-in, apesar de já estar arrumada, porque as mãos dela precisam de alguma coisa pra fazer.
Eu já escrevi aqui sobre quando a família vem visitar, e sobre a despedida do lado de cá, com eles passando pela catraca e você ficando. A despedida invertida é pior, e eu demorei a admitir isso. Quando eles vão embora de Londres, você volta pra sua vida. Quando você vai embora do Brasil, você deixa a vida deles continuando ali, exatamente do jeito que estava antes de você chegar, e é você que some do enquadramento.
Entrei no avião com uma barra de goiabada e dois sacos de polvilho. O queijo ficou na geladeira da minha mãe, porque queijo não passa, e ela sabe disso há anos e mesmo assim perguntou se não dava pra tentar. Sentei. E veio o nó, que é o mesmo nó de sempre, e que eu já sei reconhecer: não é tristeza de estar indo. É a percepção de que eu esperei onze meses por quatorze dias, e os quatorze dias foram administração.
Aterrissei em Heathrow numa manhã de chuva miúda daquelas que não molham, peguei o Piccadilly, abri a porta do meu apartamento e senti alívio. Alívio de verdade, do tipo que dá vergonha de sentir. E dez minutos depois, desfazendo a mala, achei o pacote de café que a tia Neusa enfiou lá sem eu ver, com um bilhete escrito em caneta azul: "pra você tomar com calma".
Eu não sei o que fazer com as duas coisas ao mesmo tempo, o alívio e o pacote. Já faz alguns anos e eu ainda não sei. Acho que a viagem é isso: você vai administrar, volta cansado, jura que ano que vem organiza melhor, e não organiza. Vai de novo. Leva mais mala vazia na ida.
E se a saudade voltar mais nítida depois, e ela volta, sobre isso eu escrevi num texto sobre saudade e saúde mental que talvez ajude a atravessar as primeiras semanas de volta.
Se você acabou de voltar, ou está contando os dias pra ir, me escreve aqui. Quero saber se a sua lista também era maior que os seus dias.
Uma das coisas que faz a volta ser menos dura é ter gente por perto que entende sem você precisar explicar. O Lista Brasil é isso: brasileiros e profissionais reunidos pela própria comunidade, em várias cidades pelo mundo, pra quando você precisar de alguém que fala a sua língua.