
Tem um momento que todo brasileiro que mora fora do Brasil conhece. Você está cansado, foi um dia longo, e o único pensamento que não sai da cabeça é: arroz com feijão. Não risotto. Não dal. Arroz com feijão, daquele que gruda um pouco no fundo da panela, com o caldinho escuro do feijão preto e um fio de azeite no prato.
O problema é que o supermercado mais perto não tem feijão preto. Tem black beans em lata, que é uma coisa completamente diferente. Tem lentilha, grão-de-bico, edamame. Mas não tem aquilo.
Esse post existe por causa desse momento. Para te ajudar a encontrar o que falta, entender o que dá pra substituir (e o que não dá, não importa o quanto você tente) e talvez te lembrar por que cozinhar comida de casa, longe de casa, é um dos rituais mais bonitos da vida de imigrante. Se o que você está procurando é mais sazonal — panetone, salpicão, rabanada, tudo para a ceia de dezembro — o guia da ceia brasileira no exterior cuida desse lado. Aqui o foco é o dia a dia: o que cabe na geladeira em maio, agosto, qualquer mês do ano.
O que você vai encontrar com facilidade
Algumas surpresas boas: o mundo ficou menor, e os supermercados internacionais chegaram antes de você. Dependendo de onde você mora, parte da lista básica já está ao alcance.
Arroz: qualquer arroz branco de grão longo serve. Procure por "long grain white rice" nos supermercados locais. O resultado no prato fica bem próximo do arroz brasileiro, diferente do arroz japonês (mais pegajoso) e do arroz italiano (mais redondo, pra risotto). Não precisa de loja especializada.
Feijão preto: aqui começa a aventura. Black beans em lata existem em vários supermercados europeus, mas o sabor e a textura ficam aquém. Para feijão de verdade, vale buscar lojas de produtos caribenhos, africanos ou sul-americanos na sua cidade. Em Londres, bairros como Brixton, Stockwell e Peckham têm mercados que vendem feijão preto em pacote seco, o tipo que você deixa de molho na véspera. Esse é o que você quer.
Coentro fresco: vendido na maioria dos supermercados britânicos e europeus como "fresh coriander". Às vezes a versão seca (ground coriander) aparece mais em destaque, mas o fresco está lá, na seção de ervas. Cheiro diferente do coentro brasileiro? Um pouco. Mas funciona.
Alho e cebola: sem drama. Esses dois viajam bem em qualquer país.
Manteiga: a versão europeia tem mais gordura que a brasileira (em torno de 84% de gordura contra 80%), o que é bom para a maioria das receitas. Vai bem em tudo.
O que exige uma loja especializada
Para os ingredientes abaixo, o supermercado local provavelmente vai te decepcionar. A boa notícia: lojas brasileiras, portuguesas e de produtos sul-americanos estão em mais cidades do que você imagina. Em Londres, há opções no Brixton Market, em Stockwell (a vizinhança com maior concentração de brasileiros da cidade), e em lojas especializadas no centro. Fora de Londres, cidades como Dublin, Toronto, Boston e Lisboa têm seus próprios pontos de referência. Vale pesquisar no Lista Brasil os mercados brasileiros da sua cidade antes de desistir.
- Polvilho (doce e azedo): essencial para pão de queijo e biscoito de polvilho. Não tem substituto funcional — farinha de trigo não faz a mesma coisa, ponto final. Procure como "cassava starch" ou "tapioca starch" em lojas asiáticas ou sul-americanas. A versão azeda (fermentada) é mais difícil de encontrar, mas também dá para pedir online.
- Farinha de mandioca: some com facilidade em lojas africanas (procure por "gari" ou "garri" — é praticamente a mesma coisa) e em lojas brasileiras. Serve para farofa, pirão, e para aquele hábito de jogar uma colherada em cima do feijão.
- Queijo Minas / queijo branco: não existe versão exata no exterior. O halloumi tem textura parecida mas sabor bem diferente. O feta grego tem umidade similar mas é muito salgado. Para receitas onde o queijo é coadjuvante (dentro de pão de queijo, por exemplo), qualquer queijo semi-duro e de sabor neutro funciona. Para comer puro, como você faria no café da manhã em BH, prepara-se para a saudade.
- Requeijão: o queijo cremoso brasileiro não tem par perfeito na Europa ou América do Norte. Cream cheese é o substituto mais próximo na textura, mas o sabor é diferente. Ele funciona em receitas onde o requeijão era só o veículo (dentro de um enroladinho, espalhado numa tapioca). Não funciona para quem espera o sabor real. Lojas brasileiras importam requeijão em lata ou UHT — vale o preço quando você encontrar.
- Paçoca e amendoim torrado temperado: em algumas lojas brasileiras e portuguesas. Amendoim cru ou torrado sem sal existe facilmente, mas o amendoim temperado de pacotinho vermelho (o da festa junina na sua cabeça) geralmente fica esperando numa prateleira brasileira.
- Rapadura: encontrada em lojas de produtos indianos e africanos como "jaggery" (panela de cana não refinada) — o sabor é muito próximo. Uma descoberta que a maioria dos brasileiros fora do Brasil faz com alegria.
- Goiabada: em lojas portuguesas e brasileiras. Também encontrada em mercados latinos nos EUA e Canadá. Nas cidades maiores da Europa, é mais fácil do que parece.
- Pão de queijo congelado: nos últimos anos, marcas brasileiras como a Forno de Minas passaram a exportar para redes de supermercados em Lisboa, em cidades do Reino Unido e nos EUA. Verifique a seção de congelados das lojas brasileiras da sua cidade. Quando encontrar, compre mais de uma embalagem.
Quando substituir funciona (e quando não funciona)
Depois de um tempo fora do Brasil, você aprende a separar as batalhas.
Substituições que funcionam bem:
- Cachaça por rum branco em caipirinha de emergência. Não é igual, mas não é uma vergonha.
- Creme de leite fresco (double cream) pela versão de caixinha brasileira em tortas e sobremesas. A versão europeia é mais gordurosa, o que é um problema bom.
- Jiló e maxixe por berinjela em refogados. Não vai ter o mesmo amargor do jiló, mas vai ter uma coisa verde no prato.
- Farinha de rosca grossa (panko) no lugar de farinha de rosca brasileira. Funciona melhor do que a versão fina europeia para empanados.
Substituições que não funcionam:
- Qualquer coisa no lugar de polvilho azedo para pão de queijo com aquela casquinha. Sem polvilho, o resultado é outro produto, não pão de queijo.
- Dulce de leche por doce de leite brasileiro. São primos, não irmãos. O argentino/uruguaio é mais firme e doce. O brasileiro tem uma leveza que aquele não tem.
- Queijo parmesão ou cheddar por queijo Minas em receitas onde o queijo é o centro do sabor. Para pão de queijo, a mistura de parmesão com um queijo de sabor neutro chega mais perto do que qualquer coisa individual.
- Achocolatado em pó qualquer por Nescau ou Toddy. Milo, Nesquik, Ovomaltine: todos são diferentes. Se você cresceu com Nescau, seu paladar vai perceber.
O ritual de cozinhar longe de casa
Tem uma coisa que demora para fazer sentido quando você está no exterior: cozinhar comida brasileira não é só alimentar o estômago. É um ato de identidade.
A primeira feijoada que você faz fora do Brasil vai sair diferente. O feijão vai ser outro, o charque vai estar faltando, o paio vai ser de alguma marca que você nunca ouviu falar. Você vai olhar para a panela com uma mistura de orgulho e suspeita. E quando sentar para comer, vai ser bom de um jeito que não tem muito a ver com a receita.
Com o tempo, essa cozinha improvisada vira uma das coisas mais suas que existem. Você aprende onde fica o melhor mercado sul-americano do bairro. Você descobre que a sua mãe, que mora do outro lado do oceano, manda polvilho na mala (e que polvilho atravessa alfândega sem drama nenhum, desde que seja em embalagem fechada e identificada). E aprende que dar um jantar brasileiro para amigos que nunca foram ao Brasil é uma das experiências mais bonitas que o exterior oferece.
Esqueça a pressão de reproduzir o original. O original fica no Brasil. O que você faz aqui é outra coisa: é a sua versão, com os ingredientes que você conseguiu, no fogão do apartamento que você alugou em alguma cidade que antes era só nome no mapa. Isso tem um sabor diferente, e melhor do que parece.
Esse post te ajudou a encontrar algum ingrediente ou te deu coragem pra tentar aquela receita? Me conta aí embaixo.
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