
Quando comecei a procurar emprego aqui, mandei o meu currículo para três vagas no primeiro dia. Tinha foto 3x4 no canto, estado civil, data de nascimento, um "Objetivo profissional" que ocupava seis linhas, e três páginas e meia de histórico de responsabilidades em bullets. Achei que estava arrasando. Não recebi resposta de nenhuma das três. Três. Semanas depois, uma recrutadora brasileira que já trabalhava em Londres há uns anos olhou o meu CV com aquela cara de quem vai dar notícia ruim e falou: "amiga, isso aqui não funciona nesse mercado." Aí a ficha começou a cair.
Se você tem direito de trabalhar no Reino Unido, seja por Skilled Worker, Graduate Visa, dependente ou qualquer outro visto, e está prestes a montar (ou reformar) o currículo para o mercado britânico, este post é para você. Não é um guia genérico de como escrever um bom currículo. É sobre as diferenças específicas entre o currículo brasileiro e o britânico: o que muda, por que muda, e o que acontece quando você ignora essas regras.
Por que o CV britânico é um jogo diferente
Primeiro, um detalhe bobo mas que confunde: CV aqui é a mesma coisa que currículo no Brasil, só que ninguém chama de currículo. É CV no papel, CV na conversa, CV no email. Guarda o termo, vai te poupar de cara de interrogação nas primeiras entrevistas.
No Brasil, o currículo é um documento de apresentação pessoal. Você coloca foto porque quer ser reconhecido. Coloca objetivo profissional porque quer mostrar motivação. Lista responsabilidade por responsabilidade porque é prova de que você trabalhou. Faz todo sentido lá. Não faz nenhum aqui.
No Reino Unido, dois fatores mudam o jogo. O primeiro é legal: a Lei de Igualdade de 2010 (Equality Act 2010) protege nove características contra discriminação — idade, deficiência, raça, sexo, religião, orientação sexual, entre outras. Qualquer informação que deixe essas características visíveis antes da entrevista cria risco jurídico para o empregador. Por isso foto, data de nascimento e estado civil simplesmente não aparecem no CV britânico. O empregador não quer saber, e você não deve oferecer.
O segundo fator é tecnológico: a maioria das grandes empresas usa sistemas automáticos de triagem, os ATS (Applicant Tracking Systems). Antes de qualquer humano ver o seu CV, um software lê o arquivo, extrai palavras-chave e decide se você avança. E em 2026 esse software está cada vez mais rodando em cima de IA, o que significa que ele é melhor em interpretar sinônimos e contexto, mas continua igualmente implacável com formatação estranha. CV com tabela, coluna dupla, caixa de texto ou imagem embutida? O sistema não lê direito, o CV vira um amontoado de palavras soltas, e você some da pilha sem nenhum humano nunca ter visto o seu nome. Morrer pelas mãos do algoritmo antes mesmo de existir como candidato é um perrengue tão moderno que nem tem nome em português ainda.
O que cortar do seu CV brasileiro
Antes de adicionar qualquer coisa nova, tire o que não deve estar lá. O Serviço Nacional de Carreiras britânico é direto: "Não inclua sua idade, data de nascimento, se você é casado ou sua nacionalidade." Isso também vale para:
- Foto: Nunca. Nem aquela foto boa que você tirou em 2018 num evento da empresa. Se você colocar foto, já sinalizou que não entende o mercado daqui antes mesmo da recrutadora ler o seu nome.
- Data de nascimento e idade: Fora. Protegidas pela lei.
- Estado civil: Fora. Ninguém aqui se interessa se você é casado, solteiro, amasiado, complicado ou um It's Complicated do Facebook.
- Gênero, religião, filiação política: Fora. Pela mesma razão jurídica.
- CPF, RG ou número de documento brasileiro: Fora. Isso aqui não vale nem para tirar um livro na biblioteca.
- Assinatura no final: Fora. Não é carta à vó Zefa. É currículo.
- Objetivo profissional em seis linhas: Esqueça. Substitua por um Personal Profile de três frases, que é outra coisa completamente.
- Nacionalidade e tipo de visto: Não precisa declarar o tipo de visto no CV. Se a empresa perguntar sobre direito de trabalhar, uma linha simples "Direito de trabalhar no Reino Unido confirmado" é suficiente. O empregador verifica via share code depois, na etapa correta.
O que colocar no topo: informações de contato no padrão britânico
O cabeçalho britânico é enxuto. Nome completo, número de telefone com código UK (+44), e-mail profissional, cidade (não precisa de endereço completo; Londres é suficiente, ou o bairro se quiser ser mais específico), e o link do seu LinkedIn. Só isso. Nada mais. Nada menos.
Uma palavrinha sobre o e-mail: se você ainda usa aquele que criou aos 13 anos de idade, tipo [email protected] ou [email protected], chegou a hora de se despedir. Cria um novo, no Gmail, no formato nome.sobrenome. Vai por mim: recrutador recebendo CV de deusa_do_mal_007 já vai rir antes de abrir. Chega de LG_T10_do_CPF@hotmail, por favor.
Personal Profile: quem você é em três frases
Logo abaixo do contato, antes de qualquer experiência, vai o Personal Profile, equivalente ao resumo executivo do currículo. Três a quatro frases, no máximo. Não é "estou buscando uma oportunidade desafiadora" (essa é a armadilha brasileira clássica, e o recrutador britânico viu isso mil vezes). É quem você é profissionalmente, o que você faz de melhor, e o que está buscando agora. Específico, confiante, direto.
Exemplo ruim (estilo brasileiro): "Profissional comprometido buscando uma oportunidade desafiadora onde possa contribuir com meu potencial e crescer junto com a empresa." Não fala nada sobre você.
Exemplo no padrão britânico: "Engenheira de software com seis anos de experiência em sistemas de pagamento, especializada em arquitetura de microsserviços. Atuou em duas startups em crescimento acelerado e busca uma posição sênior em uma empresa de fintech consolidada em Londres." Três frases. Concreto. Dá para entender em dez segundos quem é essa pessoa.
Experiência profissional: conquistas, não responsabilidades
Aqui está o ponto onde a maioria dos brasileiros trava: o currículo brasileiro lista responsabilidades. O britânico quer conquistas com números.
No formato brasileiro, cada bullet começa com "Responsável por gerenciar a equipe de X" ou "Atuei no desenvolvimento de Y". No formato britânico, cada bullet deveria responder a uma pergunta: o que mudou por causa do seu trabalho? O padrão é ação + resultado + número.
"Responsável por otimizar processos internos" não diz nada. "Reduzi o tempo de processamento de pedidos em 30% ao automatizar três etapas manuais" diz tudo: o que você fez, o impacto e a escala. Se você não tem números exatos, estime com honestidade ("aproximadamente 40%", "equipe de 8 pessoas", "mais de R$ 2 milhões em contratos gerenciados").
Cada cargo listado segue o mesmo padrão: nome da empresa, cidade, cargo, período (mês e ano de início e fim), e de três a cinco bullets de conquistas. Sem parágrafo explicativo da empresa; o recrutador pesquisa se precisar.
Educação: compacte
No Brasil, a seção de formação costuma ter tudo: nome do curso, grade curricular, título do TCC, disciplinas relevantes, notas, medalhas. No Reino Unido, a seção de educação é compacta. Nome da instituição, nome do curso, ano de conclusão. Uma ou duas linhas por graduação. Pronto.
Ensino médio só vai se você está no início de carreira ou se a escola tem prestígio internacional reconhecível. Pós-graduação, MBA, especialização: inclua se for relevante para a vaga. O currículo Lattes (aquele monstro acadêmico do CNPq que a gente preenche de cabeça no Brasil) não é um CV britânico. É um documento acadêmico de outro contexto, e listar cinco páginas com disciplinas e TCCs aqui só sinaliza que você copiou-colou sem adaptar. Pegar no tranco é simples: quanto menos, melhor.
Habilidades: relevante, não exaustivo
Liste de seis a dez habilidades diretamente relevantes para a vaga que está aplicando. "Microsoft Office" já não impressiona ninguém, o mínimo esperado de qualquer profissional. O que chama atenção são ferramentas específicas (Salesforce, Jira, AutoCAD, Python, Photoshop, dependendo da área), metodologias (Scrum, PRINCE2, Six Sigma) e idiomas com nível declarado.
Para idiomas, use os níveis do CEFR se souber: B2, C1, C2. São os níveis que empregadores britânicos reconhecem de imediato. "Inglês avançado" é ambíguo. "Inglês (C1)" é verificável e específico. Para as línguas que você domina: "Português — nativo", "Espanhol — intermediário (B1)" — no padrão britânico, o hífen entre língua e nível é formato aceito nas duas culturas.
Máximo duas páginas — e por que isso importa
Dois é o número. Para quem está no início de carreira, uma página é melhor. Para quem tem mais de dez anos de experiência, duas páginas são o limite absoluto. Três páginas só para executivos sênior com histórico muito extenso, e mesmo assim com muito critério. Currículo de cinco páginas no estilo Lattes funciona na academia brasileira. Aqui ele sinaliza que você não adaptou nada, e cai a ficha rapidinho no recrutador.
Por que tão curto? O recrutador britânico lê dezenas de currículos por vaga. O tempo médio de leitura inicial de um CV é de seis a dez segundos. Se o que você quer mostrar não aparece na primeira olhada, você perdeu a chance. A concisão não é preguiça: é respeito pelo tempo de quem está lendo.
Formatação para o ATS: simples é melhor
O sistema automático de triagem não lê PDF com colunas, tabelas ou imagens embutidas — ou lê de forma errada, embaralhando o conteúdo. Algumas regras práticas:
- Fonte simples: Arial, Calibri, Georgia ou Times New Roman, entre 10pt e 12pt. Sem fontes decorativas.
- Sem colunas: Layout em coluna dupla ou tripla fica bonito para o olho humano, mas o ATS lê da esquerda para a direita e mistura os conteúdos.
- Sem tabelas, sem caixas de texto, sem ícones embutidos.
- Arquivo em PDF na maioria dos casos, a menos que o anúncio peça .docx explicitamente. Se pedir Word, mande Word. Se não especificar, PDF preserva a formatação.
- Títulos de seção padrão: "Work Experience", "Education", "Skills", "Personal Profile". O ATS procura por esses termos. "Minha Jornada" ou "Trajetória Profissional" são criativos e invisíveis para o algoritmo.
Adapte o CV para cada vaga
Um único CV enviado para cinquenta vagas não funciona aqui. O mínimo para cada aplicação: reescreva o Personal Profile com as palavras da vaga, reordene as habilidades para colocar as mais relevantes primeiro, e espelhe alguns termos exatos do anúncio no corpo do texto. O ATS faz correspondência de palavras-chave. Se a vaga pede "project management" e o seu CV diz "gestão de projetos", você pode ter a experiência certa e passar direto pelo filtro.
Não é preciso inventar nada: é sobre usar a linguagem que o empregador usou. Ele descreveu a vaga de um jeito específico porque é assim que ele pensa sobre aquele cargo. Quando o seu CV espelha essa linguagem, fica mais fácil de ler e de rankear.
Uma coisa que ninguém te avisou: o CV não tem encerramento
No Brasil, carta e currículo costumam terminar com um "Atenciosamente" e assinatura. Aqui não. O CV britânico simplesmente termina. Sem fórmula de cortesia, sem assinatura, sem despedida. A carta de apresentação (a cover letter) tem o seu próprio encerramento, mas isso é outro documento. O currículo termina quando acabam as informações relevantes. Ponto.
Falando em cover letter, semana que vem o próximo post da série cobre exatamente isso: como usar o LinkedIn para chamar atenção do recrutador certo, onde aplicar para vagas no Reino Unido, e como escrever uma cover letter que não pareça gerada por um chatbot às três da manhã. Se você chegou até aqui, esse é o próximo passo natural.
Se isso te ajudou a entender o que estava errado no seu CV, me conta aí embaixo — me ajuda a saber o que escrever em seguida.
CV reformulado e pronto para aplicar. Agora é hora de encontrar as vagas certas. No Lista Brasil, na categoria Empregos em Londres, você encontra empresas e recrutadores que conhecem o perfil do profissional brasileiro e já trabalharam com vistos e direitos de trabalho no Reino Unido. Vale dar uma olhada antes de sair mandando candidatura no escuro.