Primeiros 30 dias em Londres: o checklist que eu queria ter recebido no avião

Tem uma coisa que ninguém te manda junto com o visto: um roteiro pros primeiros 30 dias. Esse roteiro é pra quem desembarcou pra ficar — com visto de estudante, trabalho, dependente ou qualquer outro que dá direito de morar aqui. Se você só vem passar duas semanas a turismo, fecha a aba: esse post não é pra você.

Você chega em Heathrow com a mala pesada, o coração acelerado e a cabeça cheia de lista — mas a lista é toda mental, incompleta, e misturada com medo de esquecer alguma coisa importante. Eu cheguei assim. A maioria dos brasileiros chega assim.

Esse post é o roteiro que eu queria ter recebido antes de embarcar. Não é teoria — é o que você realmente precisa resolver nos primeiros 30 dias para não se perder em burocracia, não perder prazo, e não pagar por algo que podia ter evitado. Vai por etapas: o que fazer no avião ainda, o que resolver na primeira semana, e o que pode esperar um pouco mais. Se você ainda está no Brasil se preparando, baixe também o Guia Londres 2026 — ele cobre transporte, custo de vida, roteiro e tudo que vem antes e depois do desembarque.

Antes de aterrissar: crie sua conta no UKVI

Se você tem visto britânico emitido depois de outubro de 2024, não vai receber nenhum cartão físico no desembarque. O sistema mudou. Agora tudo é digital: seu status de imigração fica registrado num eVisa — um documento eletrônico vinculado à sua conta no governo britânico.

O primeiro passo — antes de qualquer outro — é criar sua conta no UKVI (o portal de imigração do governo britânico, em gov.uk/evisa) e adicionar seus dados de passaporte. É de graça e você consegue fazer ainda no Brasil, antes de embarcar. Dentro da conta, você acessa o eVisa e gera um share code — um código temporário que você usa para provar seu direito de estar aqui para empregadores, proprietários e qualquer órgão que pedir. Sem esse código, você não consegue assinar contrato de trabalho nem alugar um quarto com documentação.

Já fez a conta? Instale no celular, salve offline, anote o código de acesso em algum lugar seguro. No aeroporto, o Wi-Fi não é garantido.

Semana 1 — o que não pode esperar

Registre-se no NHS antes de ficar doente

O NHS é o sistema público de saúde britânico — e quem tem visto e pagou o IHS (a taxa de saúde incluída no processo de visto) já tem direito de usar. Para estudantes, o IHS custa £776 por ano; para outros vistos, £1.035 por ano. Isso foi pago antes de você embarcar. Agora é só ativar.

Registrar-se no NHS começa pelo GP — o clínico geral, o equivalente ao posto de saúde aqui. Você vai ao site do NHS, pesquisa consultórios perto do seu endereço e pede cadastro. A boa notícia é que você não precisa de ID, comprovante de endereço nem de status de imigração para se registrar. Basta nome, data de nascimento e endereço. O cadastro é confirmado em até 5 dias — às vezes um pouco mais.

Vale fazer isso na primeira semana, antes de precisar. Clínico geral lotado é regra, não exceção. Se ficar mal antes de ter um GP, ligue para o 111 — é a linha de saúde não-emergência do NHS, funciona 24h. Para emergências reais, é o 999 e o pronto-socorro (A&E). Vale salvar os dois números agora.

A conta no banco vai dar trabalho — e tudo bem

Prepare-se para o loop clássico do recém-chegado: o banco pede comprovante de endereço britânico. Para ter comprovante de endereço, você precisa estar pagando contas aqui. Para alugar, o proprietário pede conta bancária. Você acabou de chegar. Não tem nenhum dos dois.

A saída que funcionou para mim — e para a maioria dos brasileiros que conheço — são os bancos digitais. Monzo, Starling e Revolut costumam aceitar novos residentes sem histórico de crédito britânico e com requisitos de documentação mais simples. Baixe o app, faça a verificação de identidade com passaporte e o endereço temporário que você tem (pode ser o Airbnb ou a casa de alguém). Funciona. Não é garantia de aprovação, mas é o caminho de menor resistência.

Com a conta digital aberta, você já tem sort code, account number e IBAN britânicos — o suficiente para receber salário, pagar aluguel, configurar débito automático e tudo mais. Para a maioria dos brasileiros em Londres, o banco digital é o único banco que precisa. Barclays, HSBC, Lloyds e outros bancos de rua só entram em cena se um empregador específico exigir conta de high-street bank ou um landlord recusar aceitar Monzo/Starling no comprovante — acontece, mas é exceção, não norma. Se cair nessa exceção, depois que você tiver comprovante de endereço aqui (uma conta de serviço, extrato ou carta do council), o banco tradicional abre conta básica sem exigir histórico de crédito britânico.

E enquanto resolve a conta bancária: leve libras em espécie para os primeiros dias ou use um cartão internacional sem taxa de câmbio (Wise, Revolut no modo viagem). O metrô, os ônibus e a maioria dos comércios aceitam contactless — mas o cartão sem IOF vai salvar você na primeira semana.

O transporte não precisa de cartão especial

Em Londres, você não paga passagem individual para cada viagem — você toca o cartão (tap in, tap out) e o sistema cobra o valor justo, com teto diário e semanal automáticos. Qualquer cartão de crédito ou débito contactless serve, inclusive o brasileiro com função internacional habilitada. Não precisa comprar cartão de transporte local.

O Oyster existe e muita gente chegando ainda ouve que precisa comprar — mas hoje ele só vale a pena em dois cenários específicos: se você é estudante e vai pedir o 18+ Student Oyster photocard para ter 30% de desconto, ou se por algum motivo você ainda não tem cartão contactless. Fora isso, o contactless faz o mesmo trabalho e aplica os mesmos tetos automaticamente.

O que você não faz é andar por Londres comprando bilhete individual no guichê — é o jeito mais caro e mais lento de se locomover. Em dúvida de rota, Citymapper — muito melhor que o Google Maps para metrô e ônibus em Londres.

Semana 2 — burocracia que não pode deixar passar muito

O NIN tem fila — pedir logo economiza dor de cabeça

O National Insurance Number — o NIN — é o CPF britânico. É o número que liga seus impostos e contribuições previdenciárias ao seu nome. Sem ele, você trabalha com uma retenção de imposto maior na fonte e não consegue contribuir corretamente para o sistema de pensão.

O pedido é online, em gov.uk/apply-national-insurance-number. Você vai precisar do passaporte para identificação. O processo leva até 4 semanas — então quanto antes você pedir, melhor. E detalhe que muita gente não sabe: dá para começar a trabalhar antes de receber o NIN, desde que você prove seu direito de trabalhar — o que você faz pelo share code do eVisa.

Se o seu NIN já veio impresso no eVisa ou aparece na sua conta UKVI, você já tem o número e não precisa pedir de novo. Vale checar antes de fazer o pedido.

Council Tax: quem paga, quem tem isenção

O Council Tax é o imposto municipal britânico — pago por quem mora num imóvel. Quem aluga um quarto em casa compartilhada raramente paga diretamente (o proprietário ou o letting agent divide isso entre os moradores ou inclui no aluguel). Mas se você for o responsável pelo imóvel, isso é coisa sua.

Estudantes de tempo integral têm uma vantagem aqui: se todos os moradores da casa forem estudantes de tempo integral, o imóvel pode ter isenção total de Council Tax. Para isso, você precisa pedir junto à prefeitura local (local council) com comprovante de matrícula. Não cai no colo automaticamente — você tem que pedir. Vale a pena confirmar com o seu council local qual é a regra exata, porque as condições variam um pouco de borough para borough.

Mesmo que não tenha isenção completa, pode haver desconto dependendo da situação da casa. Vale checar antes de assumir que vai pagar o valor cheio.

Semana 3 e 4 — acerta os detalhes que o primeiro mês exige

O endereço novo precisa chegar em todo lugar

Parece óbvio, mas é fácil esquecer: HMRC (o equivalente à Receita Federal), NHS, banco digital, qualquer serviço de entrega que você já usou. Carta do HMRC enviada para endereço errado pode segurar restituição de imposto ou comunicado importante.

Vale atualizar no UKVI também — se você mudar de endereço durante o visto, comunicar ao UKVI é obrigação. Não é multa imediata se esquecer, mas é parte das suas obrigações de visto e pode complicar renovação se ficar desatualizado.

Os documentos brasileiros que compensam ter à mão

Alguns documentos do Brasil fazem diferença aqui — e é mais fácil resolver enquanto você ainda tem contato fresco com o Brasil. Antes de precisar deles na pressa:

  • Certidão de nascimento apostilada — para qualquer processo que exija comprovar sua identidade com validade internacional.
  • Histórico escolar e diplomas apostilados — se você vai buscar emprego qualificado, algumas empresas pedem.
  • Carteira de trabalho brasileira — não é pedida aqui, mas guarde bem: ela é o registro do seu tempo de contribuição no INSS brasileiro, que conta para aposentadoria no Brasil se um dia você voltar ou se aposentar por lá com tempo misto. Difícil de recuperar depois.
  • Procuração — se você tem negócios ou bens no Brasil, vale passar procuração para alguém de confiança antes de sair. Fazer procuração aqui pelo consulado é possível, mas mais trabalhoso.

Não precisa resolver tudo antes de embarcar — mas avise alguém de confiança no Brasil que pode precisar pedir documentos por você se urgir. Um e-mail com a lista ajuda.

O que ninguém te conta sobre o primeiro mês

A burocracia londrina tem uma característica que irrita todo mundo no início: cada coisa depende de outra coisa que você ainda não tem. Para alugar, precisa de banco. Para banco, precisa de endereço. Para endereço, precisa de referência. Para referência, precisa de emprego. Para emprego, precisa de NIN. Para NIN, precisa de um mês de espera.

O segredo é não tentar resolver tudo na ordem "certa" — porque não existe uma ordem certa. Você começa pelo que consegue abrir e vai desbloqueando o resto a partir daí. O banco digital primeiro (e, pra maioria, único). O eVisa share code para provar que tem direito. O NHS porque não depende de nada. O NIN o quanto antes porque tem fila. O Council Tax quando souber com quem divide a casa.

Vai dar trabalho. Vai ter dia em que você vai passar a manhã inteira ao telefone com algum serviço britânico e não chegar a lugar nenhum. Vai ter semana em que a lista de pendências parece não acabar. Isso é normal — e passa. Depois do primeiro mês, a cidade começa a fazer sentido de um jeito que nenhum planejamento no Brasil consegue preparar.

E aí você entende por que Londres é impossível de explicar para quem nunca morou aqui.

Me conta aí embaixo se esse checklist te ajudou — ou se ficou faltando alguma coisa que eu deveria ter incluído.

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