
Na semana passada, falamos sobre o CV britânico: o que cortar, o que colocar, e por que o ATS descarta currículos bem antes de qualquer humano vê-los. Se você ainda não leu, vale começar por esse post primeiro, porque o que vem aqui pressupõe que o documento já está no formato certo.
O post de hoje é o passo seguinte. Com o CV reformulado, você precisa saber onde mandar, como usar o LinkedIn de um jeito que funcione no UK, e o que esperar quando um recrutador te liga. São três coisas que parecem óbvias e não são, especialmente para quem vem do mercado brasileiro.
O LinkedIn aqui é diferente do que você está acostumado
Quando cheguei em Londres, abri o meu LinkedIn e pensei: pronto, é o mesmo LinkedIn. Tinha foto, tinha as minhas experiências, tinha umas recomendações. Achei que estava bem posicionado. Três semanas depois, zero recrutador havia me encontrado no search deles, e os únicos que tinham mandado mensagem eram de vagas completamente fora do meu perfil.
O que eu não sabia: recruiter britânico bate o olho em três coisas antes de qualquer outra: headline, localização e as últimas três experiências. Se a headline diz "Profissional dinâmico buscando oportunidades", você não aparece no resultado de ninguém. Se a localização está em São Paulo, o recrutador londrino vai ignorar, mesmo que você tenha direito de trabalhar no UK. E se as últimas experiências não têm números, você é invisível no filtro de candidatos.
Algumas regras que fizeram diferença, e que valem para qualquer brasileiro chegando agora:
- A headline precisa ser uma função, não um desejo. "Marketing Manager | Brand Strategy | Consumer Goods" aparece em busca. Esqueça o "Profissional apaixonado por desafios": isso não aparece em busca nenhuma.
- Coloque Londres (ou a sua cidade) como localização agora. Se você tem direito de trabalhar no UK e está se preparando para chegar, ajuste já. Aparecer na busca certa vale mais do que a precisão geográfica.
- O "About" segue a mesma lógica do Personal Profile do CV: três ou quatro frases. O que você faz, o que você entrega, o que está buscando. Direto.
- Cada experiência precisa de pelo menos um número. "Aumentei a base de clientes em 35%", "geri orçamento de £200k", "reduzi tempo de processo em 20%". Sem número, você se parece com cem outras pessoas que fizeram "basicamente a mesma coisa".
- Peça recomendações em inglês. Recomendação em português no perfil britânico é invisível, e ainda sinaliza que o perfil não foi pensado para o mercado daqui.
As plataformas que de fato funcionam no UK
Não existe uma única plataforma que domina tudo. Cada uma tem um perfil diferente, e o que funciona depende do setor e do nível de senioridade. A regra prática: não dispersar em dez lugares. Escolha dois ou três, monitore com consistência, configure alertas de email por palavra-chave. E antes de abrir o primeiro job board, há uma plataforma que você precisa ver primeiro.
Lista Brasil — o ponto de partida para quem é brasileiro
Vou ser direta sobre por que o Lista Brasil aparece antes do Indeed aqui: é a única plataforma onde você não começa do zero. Os empregadores e recrutadores que anunciam lá já trabalham com o perfil de brasileiro chegando ao UK. Eles já passaram por esse processo antes. Já entendem a diferença entre um Skilled Worker e um estudante com permissão de trabalho. Já sabem o que é um visto de dependente.
E mais importante: são vagas onde inglês intermediário não é deal-breaker. Hospitalidade, limpeza, construção, beleza, transporte — as portas de entrada reais do mercado britânico para quem chega. Recrutadores que atendem em português e explicam o sistema em vez de te tratar como um caso problema. Sem o muro do "we don't sponsor" logo no título da vaga, porque quem está lá já sabe o terreno. Isso não existe no Indeed. Não existe no Reed. É específico de uma plataforma que foi construída para esta comunidade.
Indeed UK — o maior volume de vagas do país
Depois de checar o Lista Brasil, o Indeed UK é onde você amplia o raio. É o job board com mais tráfego no Reino Unido — qualquer setor, qualquer nível, qualquer cidade. Para quem está começando a busca, é onde o volume de opções é maior: hospitalidade, escritório, tecnologia, saúde, logística. Uma dica que a maioria descobre tarde: ajuste o filtro para "posted in the last 7 days". Candidatura em vaga com mais de duas semanas raramente chega ao topo da pilha do recrutador. O algoritmo já enterrou você.
Reed — forte em administração, finanças e NHS
O Reed tem boa penetração em contabilidade, RH, administração e em vagas do NHS. Sabe quando você acha que Indeed já cobre tudo? Para setor público e saúde, o Reed chega onde o Indeed não chega tão bem. Vale checar em paralelo se a sua área tiver essa interseção.
Totaljobs — se você está pensando em cidades fora de Londres
Manchester, Birmingham, Bristol, Leeds — o Totaljobs tende a ter mais vagas regionais em setores específicos. Se você tem flexibilidade geográfica, vale abrir junto. Para quem busca só em Londres, pode ficar para depois.
Glassdoor — não é para buscar vaga, é para não entrar na errada
O segredo do Glassdoor que a maioria dos brasileiros não usa: antes de aceitar qualquer entrevista, pesquise a empresa lá. Avaliações de ex-funcionários, faixa salarial reportada, descrição da cultura. Em um mercado onde o processo seletivo costuma ter três, quatro rounds, saber que a empresa tem avaliações péssimas sobre gestão poupa semanas de energia investida no processo errado. Use como inteligência, não como busca ativa. Isso aqui ninguém te ensina — você só aprende depois de ter perdido um mês num processo que não valia o tempo.
Como funcionam as agências de recrutamento no UK
Antes de se cadastrar numa agência genérica, vale ver quais agências estão no Lista Brasil — várias atendem em português e já trabalham especificamente com brasileiros recém-chegados. É uma diferença que você sente na primeira ligação: em vez de explicar o básico do seu visto, você fala com alguém que já sabe.
Dito isso: entender como funciona o modelo britânico de agência de recrutamento é importante em qualquer caso. Agência aqui não é "despachante de currículo". É um intermediário que tem relacionamento ativo com empresas-clientes, conhece vagas antes de serem publicadas, e recebe comissão do empregador quando fecha uma contratação. O candidato não paga nada, nunca. Se uma agência cobrar do candidato, é sinal de golpe.
O processo começa com o que eles chamam de screening call: uma ligação de 15 a 20 minutos onde o recrutador verifica se você tem o perfil básico. Direito de trabalhar no UK (sempre vai perguntar), experiência relevante, expectativa salarial, disponibilidade. Não é entrevista técnica, é triagem. Olha, da primeira vez que recebi uma dessas ligações fiquei sem chão com o tom: direto, sem aquecimento, sem as gentilezas do mercado brasileiro. Perguntaram meu salário esperado antes de perguntar meu nome. Não é grosseria — é o ritmo do mercado daqui. O que eu precisava saber antes de atender: fale claro sobre o seu nível de inglês, seja honesto sobre o tipo de visto, e tenha em mente uma faixa salarial. A faixa. Não "negociável". Um número.
Depois da screening call, se o perfil combina, o recrutador apresenta o seu CV ao cliente. A partir daí, você é convocado diretamente pela empresa. A agência acompanha, mas sai do meio da conversa.
Recrutador interno da empresa (o chamado in-house recruiter) conhece melhor a cultura e tem mais ingerência na decisão final. Agência entrega mais volume de oportunidades, com menos profundidade. Nenhuma das duas é melhor em absoluto. Cadastre o CV nas duas frentes e veja o que aparece primeiro.
Abordagem direta a empresas: quando funciona
Esqueça mandar currículo espontâneo para grandes empresas no UK. Recrutador interno e gestores costumam ignorar aplicações que chegam fora de um processo aberto. O perrengue não vale a energia.
A exceção real: quando você tem um contato interno. Se alguém da empresa mencionar o seu nome para o time de recrutamento, a candidatura sobe de pilha na hora. Esse processo tem um nome formal: employee referral. E aqui tem um detalhe que, da primeira vez que ouvi, não acreditei: em muitas empresas, o funcionário que indicou você recebe um bônus quando a contratação fecha. Em libra, na conta. É a forma mais rápida de uma vaga ser preenchida — o empregador paga menos do que pagaria para uma agência, e o funcionário sai ganhando. Todo mundo incentivado. É assim que o mercado funciona por aqui.
A comunidade brasileira em Londres está toda no Lista Brasil. Quando você precisar de uma indicação — saber quem está dentro de qual empresa, quem pode mencionar seu nome antes do processo abrir — é onde você encontra essa rede. Indicação de alguém que você encontrou no Lista Brasil é uma indicação que parte de um contato real, verificado, dentro da mesma comunidade.
Para PMEs e startups, a abordagem direta via LinkedIn ainda tem taxa de retorno decente. Uma mensagem curta e específica — "vi que vocês estão crescendo a área de X, tenho experiência com Y, posso mandar o CV?" — chega melhor do que candidatura no formulário genérico do site. Mas seja específico ou não mande nada.
Cover letter: a realidade é bagunçada
Vou ser direta: o mercado britânico não tem uma posição uniforme sobre cover letter. Em algumas áreas (setor público, terceiro setor, academia, certos cargos seniores), a carta é lida de verdade e pode ser o que diferencia dois candidatos tecnicamente equivalentes. Em boa parte das vagas de escritório em empresas privadas, na prática o recruiter olha o CV e a carta é o último documento que abre, se abrir.
A regra prática: se o anúncio pede cover letter, escreva uma de verdade, específica para aquela vaga. Carta genérica é pior do que não mandar. Se o anúncio não pede, não mande.
Quando escrever, três parágrafos são suficientes: por que você quer trabalhar naquela empresa específica (pesquise algo concreto: produto, projeto recente, cultura), o que você traz de específico para a vaga (um ou dois achievements do CV expandidos com contexto), e disponibilidade e expectativa salarial. Sem "sempre fui apaixonado por desafios". Sem três páginas. E uma coisa que ninguém avisa: esqueça o "envio do CV para vinte vagas no mesmo dia". No UK isso não é proatividade — é o que faz você desaparecer no algoritmo do recrutador. Carta genérica mais candidatura em massa é a combinação perfeita para não receber resposta alguma.
O que vem na semana que vem
CV reformulado, LinkedIn ajustado, plataformas mapeadas, recrutadores contatados. A próxima etapa é a que mais assusta: a entrevista britânica. O formato é diferente do que você está acostumado, tem uma estrutura específica chamada método STAR, e o erro mais comum do brasileiro é chegar caloroso demais para um processo que começa muito mais frio. Explico tudo no próximo post, em 11 de maio.
Se essa parte do processo ainda está nebulosa, me conta aí embaixo o que está travando mais — me ajuda a saber onde aprofundar.
Perfil ajustado, plataformas mapeadas — próximo passo é encontrar as vagas certas. No Lista Brasil, na categoria Empregos em Londres, você encontra empresas e recrutadores que já trabalham com o perfil de profissional brasileiro no Reino Unido, falam português e entendem o terreno do visto. Vale checar antes de sair mandando candidatura no escuro.