
Faz pouco mais de quatro anos que estou em Londres. E num jantar há algumas semanas, uma colega inglesa parou no meio da conversa, inclinou a cabeça de lado com aquele sorriso curioso que a gente aprende a reconhecer, e perguntou: "Where are you from?"
Quatro anos. Ela perguntou onde eu era.
Respondi. Ela sorriu mais, disse que adorava o sotaque brasileiro, achou uma graça. Eu sorri de volta, agradeci, mudei de assunto. E fiquei com aquilo por dias.
Não porque me incomodou. Me incomodou a minha própria reação: um segundo de desconforto antes do sorriso. Aquele segundo que não era vergonha do sotaque, era... o quê exatamente? A sensação de ser marcada. De ser localizada num mapa antes de poder me apresentar como pessoa. Eu fico sendo brasileira antes de ser qualquer outra coisa que eu tenha dito na mesa.
Fui ao banheiro um segundo depois. Me olhei no espelho por um instante, aquela fração de segundo que não serve pra nada concreto mas que a gente faz assim mesmo. Voltei pra mesa. A conversa tinha seguido em frente. Eu segui junto.
Minutos depois do jantar, no tube de volta pra Stockwell, a linha Victoria barulhenta do jeito que é, peguei o celular e mandei um áudio pra minha mãe contando. Mandei dois, na verdade. Falei o episódio inteiro, com a entonação exagerada que a gente usa nos áudios de WhatsApp quando está encenando alguma coisa, e ela estava ouvindo do outro lado da tela enquanto eu mandava.
Quando ela respondeu, ela disse: "Eu tava ouvindo você contar e fiquei achando engraçado o seu sotaque."
"Que sotaque?"
"Ai, Sofia. Você tá falando diferente."
Fiquei olhando pra tela por um tempo. Lá fora passavam as estações.
O inglês que carrega o Brasil
Meu inglês nunca foi sotaque zero. Nunca vai ser. Isso eu aceitei mais cedo do que esperava, e mais fácil do que esperava também.
No começo queria desaparecer dentro do idioma, virar sonho de falante nativa, passar pela palavra "certificate" sem que o t denunciasse de onde eu era. Não aconteceu. O t continua lá. A vogal do "open" continua um pouco mais aberta do que diz o manual. Quando estou cansada ou animada, o ritmo das frases escorrega pra cadência que a minha mãe me ensinou em Belo Horizonte.
O que mudou foi o que eu faço com isso. Passei a pronunciar algumas palavras deliberadamente mais próximas do inglês britânico, não pra esconder, mas pra ser entendida mais rápido. "Water" virou uma pronúncia ligeiramente diferente da que eu trouxe do Brasil. "Actually" ganhou uma acentuação que eu aprendi por imitação no escritório.
E tem uma coisa que não conto pra quase ninguém: às vezes acho o meu próprio sotaque em inglês levemente charmoso. Esse pensamento me deu um segundo de vergonha na primeira vez que apareceu. Agora menos. É meu, afinal. Só que achar o próprio sotaque charmoso soa convencido, e eu não gosto de parecer convencida, então isso fica entre mim e este post.
O sotaque que eu tenho em inglês é o registro de onde eu estive, do caminho que o idioma fez dentro de mim. A vogal mineira no meio do inglês londrino é evidência, não falha.
O português que foi mudando devagar
O avesso é mais difícil de olhar.
Não aconteceu de um dia pro outro. Foi acumulando em pequenos deslizes que eu só percebi quando juntei os pontos. O primeiro sintoma foi estrutural: comecei a construir algumas frases em português com a lógica do inglês, sujeitão-verbão-complemento sem os rodeios que o português brasileiro usa com naturalidade. Frases que saíam corretas mas um pouco engessadas, como tradução bem feita de algo que não deveria precisar de tradução.
Depois veio a palavra que some. Uma vez, numa chamada com uma amiga de BH, eu falei "deadline" no meio de uma frase e ela riu. "Prazo, Sofia, você virou gringa." Eu ri junto, falei que ia me cuidar. Continuei usando "deadline" nas semanas seguintes porque quando a palavra vem, ela vem em inglês, e parece errado forçar.
E tem o "faz sentido", que eu uso no português agora com uma frequência que revela origem. "Makes sense" vazou. Entrou no meu português como invasora que não pede licença. Minha mãe começou a usar também, de tanto ouvir em ligação, o que me dá uma culpa que nem sei bem explicar.
O momento mais claro foi há uns seis meses. Eu estava escrevendo uma mensagem em português, uma mensagem simples, e parei no meio de uma palavra comum. Não absurda, não técnica. Uma palavra que eu uso desde criança. E precisei de três segundos, talvez quatro, pra ela voltar.
Quatro segundos numa palavra mineira de toda a vida.
O sotaque mineiro que resiste
Aqui está o que me salvou de virar estrangeira dentro do próprio idioma: o mineiro não vai embora fácil.
Tem coisa no jeito de falar de BH que é estrutura de osso, não de músculo. O ritmo de Minas é particular, aquelas sílabas que se comem no meio da palavra, o uai que escapa quando a surpresa é grande, a musicalidade que não tem paralelo em São Paulo nem no Rio. Essa camada ficou. Está no português que eu falo com a minha mãe, está no português que eu falo com as amigas brasileiras aqui em Stockwell, está nos áudios que mando pras pessoas que gosto.
Quando ligo pra casa, eu volto. Não completamente, não instantaneamente, mas nos primeiros minutos da chamada o sotaque mineiro acende de volta como aparelho que volta da hibernação. Minha mãe não repara mais, ou repara e não fala, ou acha que era exagero dela antes. A minha tia percebe. A minha tia percebe tudo.
Tem uma palavra que eu uso pra medir isso: trem. Esse trem de Minas que quer dizer coisa, situação, qualquer substantivo que ainda não ganhou nome. Quando eu ainda uso trem sem pensar, sem traduzir, sem pausar, eu sei que ainda estou lá dentro do idioma que aprendi em BH. É o meu marcador. A minha sonda.
Só que essa volta também é parcial agora. Há um ritmo que ficou aqui, que não viajou de volta no retorno. E quando visito o Brasil, a versão de mim que aparece nos primeiros dias ainda carrega alguma coisa do lado de cá, uma cadência de quem mora fora que minha família percebe antes de eu perceber. Eles não dizem muito. A minha mãe diz com os olhos antes de dizer com palavras.
Entre um idioma e outro
Tem um amigo meu em Londres, paulistano, que mora aqui há sete anos. Ele me disse uma vez que parou de tentar calcular em qual língua pensa. "Eu penso nos dois ao mesmo tempo agora. É uma terceira língua que não tem nome."
Eu entendi imediatamente. E entendi porque me reconheci.
Confusão não chega a ser a palavra. É um lugar de onde as duas línguas são acessíveis, mas de onde nenhuma é completamente natural. Você nunca vai ser completamente nativo no inglês. E deixou de ser completamente nativo no português da forma que era antes. Você vive no intervalo.
Tem gente que tenta apagar o sotaque em inglês, que faz aulas, que se policia, que grava a própria voz pra se corrigir. Eu entendo o impulso. Mas acho que é a aposta errada: o sotaque não é o inimigo. O que cansa, o que realmente cansa, é o esforço de não parecer de nenhum lugar. Esse esforço não tem fim e não tem prêmio.
Você vai continuar sendo marcado. A colega vai continuar perguntando de onde você é. A mãe vai continuar dizendo que você fala diferente. E o português vai continuar sendo um idioma que você usa com mais camadas do que tinha antes.
Essa acumulação de camadas não tira nada de você. Acrescenta. É o que acontece com qualquer coisa que vive em dois lugares ao mesmo tempo.
Escrevi sobre a língua que um filho bilíngue carrega antes: como ela fica dividida entre dois mundos, como a saudade só tem nome em português. Mas esse post era sobre outra pessoa. Este é sobre o que acontece com quem carrega a divisão dentro do próprio idioma, não no filho, na própria fala.
E sobre o que cabe num áudio de WhatsApp, escrevi também: que a voz, quando mandada em áudio, carrega mais do que as palavras. Carrega o sotaque. Carrega o lugar onde você está quando fala. A sua mãe ouve isso antes de ouvir o que você disse.
De volta à pergunta da colega
Pensei muito na reação que tive naquele segundo antes do sorriso. E cheguei a uma conclusão que pode parecer simples mas demorou tempo:
O sotaque não é o que você perde no caminho. É a marca de que você esteve nos dois lugares. É evidência física de uma trajetória que existe de verdade, que não cabe num formulário e não é resumível num where are you from?
A pergunta da minha colega inglesa não era hostil. Era genuína. Ela queria saber de onde eu era. E eu sou de Belo Horizonte, capital mineira, cheia de sílabas comidas e uais que escapam, transplantada pra esta cidade impossível de explicar que me deu sotaque em inglês e me devolveu um português levemente diferente do que eu tinha quando embarquei.
Hoje eu teria respondido diferente. Não o conteúdo, a resposta é a mesma: sou do Brasil, de Minas. O que teria mudado é o segundo antes. O segundo antes agora é só curiosidade sobre o que vem na sequência da pergunta.
O sotaque permanece. Nos dois idiomas.
Tem alguma coisa segura nisso, que demorei pra ver: ninguém que vive em dois lugares ao mesmo tempo cabe inteiro em nenhum. E tudo bem. O sotaque é a prova de que você tentou.
Se você tem a sua versão disso, me conta como foi a primeira vez que alguém te disse que você fala diferente. Cada versão é diferente, e quero ouvir a sua.
A língua é só uma das coisas que a gente carrega quando muda de país. O Lista Brasil existe pra que o resto seja mais fácil: encontrar profissionais que entendem sem precisar de tradução, comunidade que fala a mesma língua, serviços que conhecem de onde você vem. Porque algumas coisas não deveriam precisar de sotaque pra funcionar.