Como contratar energia e internet no UK: o que fazer nos primeiros dias na casa nova

É a sua primeira noite na casa nova. As caixas ainda estão empilhadas na sala, o Wi-Fi do celular está fraco e você está tentando descobrir com qual companhia de energia o apartamento está registrado. O proprietário deixou um papel na bancada da cozinha com um número de telefone e a palavra "supplier". Você não sabe se é o fornecedor de luz, de gás, ou de internet. Provavelmente é tudo junto.

Contratar utilities no UK não é complicado, mas tampouco é automático como muita gente espera. Para quem acabou de assinar o contrato de aluguel e vai entrar num imóvel novo, há um conjunto de passos específicos a dar antes de se instalar de verdade. Este guia cobre energia (gás e eletricidade juntos, que é como funciona aqui), internet, água, o que é o smart meter, e o que pedir ao proprietário antes de entrar na propriedade.

O que acontece com a energia quando você assina o contrato

Quando você assume a posse de um imóvel no UK, você herda automaticamente o fornecedor de energia que estava ativo antes. Não é você quem escolhe o supplier no primeiro dia: ele já existe, e sua primeira tarefa é se identificar para ele como o novo responsável pela conta. Depois disso, você tem liberdade total para trocar de fornecedor quando quiser.

O mercado de energia no UK funciona por fornecedores privados que competem entre si. Os principais em 2026 são Octopus Energy (hoje o maior fornecedor do país, atendendo cerca de 1 em cada 4 lares), British Gas, E.ON Next, EDF, OVO Energy e Scottish Power. Todos operam com a mesma infraestrutura de rede; o que muda é o contrato, o preço por unidade e o atendimento.

Gás e eletricidade geralmente vêm do mesmo fornecedor num pacote chamado dual fuel. É mais simples de administrar e costuma sair mais barato do que contratar separado.

O que pedir ao proprietário antes de entrar

Quatro perguntas que evitam dor de cabeça nas primeiras semanas, e que valem ser feitas antes de assinar o contrato ou no dia da entrada:

  • Qual é o fornecedor de energia atual do imóvel? Nome do supplier, número da conta, se possível. Você vai precisar disso para se cadastrar como novo responsável.
  • Qual é a leitura do medidor no dia da entrada? Tire foto do medidor (ou dos medidores, se houver separado pra gás e pra luz) logo que entrar. Essa leitura protege você de pagar pelo consumo do inquilino anterior.
  • Há algum contrato de energia ativo? Se o imóvel estiver num contrato fixo com o supplier, você pode precisar respeitar esse contrato até o fim ou pagar uma multa para trocar antes do prazo.
  • O que está incluso no aluguel (bills included)? Se o aluguel for bills included, energia e água já estão cobertos. Mas verifique se internet entra nessa conta: muitas vezes não entra. Leia a seção sobre bills included no nosso guia de quartos para brasileiros em Londres se tiver dúvida sobre o que esse termo significa no contrato.

Como contratar energia no UK: o passo a passo

No dia que assumir o imóvel, tire a foto dos medidores e entre em contato com o fornecedor atual. O processo é simples: a maioria dos suppliers tem cadastro online e pede nome, endereço, leitura do medidor e dados bancários para débito automático.

Para descobrir qual é o supplier de eletricidade caso o proprietário não saiba (ou não tenha dito), ligue de graça para o 105, o número nacional que te conecta ao operador de rede da sua região (em Londres, a UK Power Networks); ele informa qual é o seu fornecedor. Para gás, o caminho mais rápido é o Meter Number Helpline no 0870 608 1524, que localiza o fornecedor a partir do seu endereço.

Assim que estiver cadastrado, não fique parado no fornecedor herdado por inércia. Quando você entra num imóvel sem escolher nada, fica no chamado deemed contract: a tarifa padrão variável daquele supplier, que quase sempre é a mais cara que existe. Você não é obrigado a ficar nela. Avalie logo nas primeiras semanas se vale travar uma tarifa fixa ou trocar de fornecedor, porque cada semana parado no deemed contract é dinheiro a mais na conta.

Tarifa fixa ou variável?

Todo contrato de energia no UK é num dos dois formatos: tarifa variável (o preço por unidade segue o limite regulado pelo Ofgem price cap) ou tarifa fixa (você trava um preço por unidade por um período, geralmente 12 a 24 meses).

O Ofgem price cap não limita o valor total da sua conta. Ele limita o quanto cada fornecedor pode cobrar por unidade de energia e pela taxa diária de acesso à rede. Quem usa mais, paga mais, sem teto. A partir de julho de 2026, o cap sobe 13%. Na prática, para uma casa de consumo típico (gás e luz, no débito automático), isso significa cerca de £1.862 por ano, uma alta de £221 sobre o período anterior, puxada principalmente pelo gás, que sobe 24%, enquanto a eletricidade sobe 5%.

Em momentos de cap alto, travar uma tarifa abaixo do cap pode fazer sentido. Os sites uSwitch e GoCompare comparam as ofertas disponíveis no seu CEP (código postal) e mostram em segundos se há algo mais barato do que a tarifa padrão do seu supplier atual.

Como fazer o switch de fornecedor

Trocar de fornecedor no UK é mais simples do que parece. Você escolhe um novo supplier, fecha o contrato online e eles cuidam de todo o processo de transferência. Você não precisa cancelar nada com o fornecedor antigo: o novo supplier faz isso por você. O processo leva em média 5 dias úteis e não há interrupção no fornecimento.

Uma coisa que pega quem vem do Brasil: se o seu contrato atual for fixo e ainda tiver meses para terminar, pode haver uma multa por saída antecipada. Vale sempre confirmar antes de fechar o switch.

O smart meter: o que é e por que importa

Muitos imóveis no UK já têm ou estão sendo migrados para um smart meter (medidor inteligente). Em vez de um funcionário da companhia passar para ler o medidor a cada trimestre, o smart meter envia a leitura automaticamente pelo sinal de rádio da rede. O resultado são contas baseadas em consumo real, não em estimativas.

A maioria dos smart meters vem com um aparelho de display chamado IHD (in-home display): uma telinha que fica na sua bancada e mostra em tempo real quanto você está gastando, em £ e em kWh. É daquelas coisas que parece supérflua até o primeiro mês de inverno, quando você liga o aquecedor às 18h e vê a conta subir ao vivo. Ajuda muito a calibrar o uso.

Se o imóvel ainda não tiver smart meter, você pode pedir ao seu supplier para instalar gratuitamente. Não é obrigatório, mas é útil. A instalação é feita por um técnico em uma visita de cerca de uma hora.

Se o imóvel já tiver smart meter, tire foto do IHD e do medidor no dia da entrada de qualquer forma. O sistema automático demora alguns dias para registrar que você assumiu o imóvel, e ter a leitura inicial fotografada é a sua proteção.

Como contratar internet no UK

Internet é o único serviço que você contrata completamente do zero, sem herdar nada do inquilino anterior. Isso é bom e ruim: bom porque você escolhe livremente; ruim porque demora. A maioria dos provedores leva de 10 a 14 dias úteis para instalar uma linha nova, e alguns chegam a 3 semanas. Contrate antes de se mudar, se possível.

Os principais provedores residenciais em 2026 são BT, Sky, Virgin Media, Vodafone e os provedores de fibra local como Community Fibre e Hyperoptic, que cobrem partes de Londres com infraestrutura própria e costumam ter preços mais competitivos onde disponíveis.

FTTC ou FTTP: qual é a diferença?

O tipo de tecnologia importa na hora de entender por que a velocidade real pode ser bem diferente do que está anunciado:

  • FTTC (fibra até o armário na rua, cabo de cobre do armário até a sua casa): a tecnologia mais comum em imóveis antigos. Velocidade anunciada de até 80 Mbps, mas na prática costuma ser 30 a 50 Mbps, dependendo da distância entre a sua casa e o armário na rua. Está sendo gradualmente substituída.
  • FTTP (fibra até a porta, sem cobre no trecho final): velocidades reais de 100 Mbps a 1 Gbps, muito mais estáveis. Está disponível em partes crescentes de Londres, mas ainda não é universal.

Antes de escolher o provedor, verifique qual tecnologia chega ao seu endereço. Use o site do provedor ou o Ofcom Checker (checker.ofcom.org.uk) para ver o que está disponível no seu CEP.

Contrato ou sem contrato?

A maioria dos provedores exige contrato de 12 a 24 meses. Há algumas opções sem contrato (chamadas no-contract ou rolling monthly), mas costumam ser mais caras por mês. Se você sabe que vai ficar no apartamento por pelo menos um ano, o contrato anual sai mais em conta. Se a situação de moradia ainda é incerta, vale pagar um pouco mais pela flexibilidade.

Uma coisa importante: quando você sai do apartamento antes do fim do contrato, você pode precisar pagar a multa de saída, que costuma ser o valor dos meses restantes. Verifique isso antes de assinar.

Água em Londres: Thames Water, sem escolha

Água em Londres não tem escolha de fornecedor. A Thames Water é o único prestador de serviço de água e esgoto em toda a região de Londres, e o relacionamento com eles é automático: você mora no imóvel, você é cliente da Thames Water. Informe o endereço e a data de entrada pelo site deles (thameswater.co.uk) para que a conta venha no seu nome.

A conta de água geralmente é cobrada a cada seis meses. Sem medidor, o valor é estimado pelo valor cadastral (rateable value) do imóvel, ou seja, é um valor fixo que não muda quer você use muita ou pouca água.

Aqui vai a dica que mais economiza dinheiro deste post, sobretudo para quem mora sozinho ou em casa pequena: peça a instalação de um medidor de água. É de graça. Com medidor, você paga só pelo que consome, e para quem usa pouco a conta costuma cair bastante em relação à estimativa fixa. A regra de bolso é simples: se a casa tem mais quartos do que moradores, o medidor quase sempre compensa.

Você pode pedir o medidor se for o responsável pela conta ou inquilino com contrato de seis meses ou mais. A Thames Water agenda uma visita técnica em até 14 dias para ver onde dá para instalar. Depois de instalado, você tem cerca de 12 meses para comparar com a cobrança antiga antes de o medidor virar definitivo, tempo de sobra para confirmar a economia. Com medidor, é só registrar a leitura online de tempos em tempos.

Diferente de energia, não dá para escolher outro fornecedor de água. A Thames Water vai estar lá pelo tempo que você ficar em Londres; o que está na sua mão é decidir como ser cobrado.

O que o orçamento mensal precisa comportar

Para um apartamento típico de um quarto em Londres, o custo de energia (gás e luz juntos) gira em torno de £80 a £120 por mês no verão e pode subir para £130 a £180 no inverno, quando o aquecedor entra em campo. Esses números variam muito dependendo do imóvel, do tipo de aquecimento e dos seus hábitos.

Internet custa entre £25 e £45 por mês para a maioria dos planos residenciais standard. Fibra de velocidade alta (500 Mbps ou mais) fica entre £35 e £55. Providers locais como Community Fibre costumam sair mais barato que as grandes operadoras, especialmente nos primeiros meses.

Água em Londres, para um imóvel sem medidor, depende do valor cadastral (rateable value) da propriedade: normalmente algumas centenas de libras por ano, cobradas em duas vezes. Com medidor, depende do consumo, e para quem mora sozinho costuma ser bem menos (mais um motivo para pedir a instalação).

Se você ainda está montando o orçamento do primeiro ano, o post quanto dinheiro guardar antes de ir para o UK traz a conta completa, com reserva de três meses e os custos iniciais que costumam aparecer antes do primeiro salário cair.

Council Tax: não está nesta lista, mas não esqueça

O Council Tax (imposto municipal cobrado pela câmara local) é um dos maiores custos fixos do inquilino no UK, mas não é cobrado pelos suppliers de energia nem pelo provedor de internet. Você paga diretamente ao seu council local, cadastrando-se online. Há isenção para estudantes em tempo integral e desconto de 25% para quem mora sozinho (o single person discount, que muita gente esquece de pedir). Tudo sobre isso está no checklist dos primeiros 30 dias em Londres.

Nenhuma conta chega sozinha no endereço novo antes de você se cadastrar. A burocracia aqui não vai atrás de você. Você vai atrás dela.

Eu aprendi isso no meu primeiro apartamento em Stockwell, quando fiquei três meses esperando o council me mandar correspondência. Ninguém ia me mandar nada: eu precisava ter entrado no site e me cadastrado no primeiro dia. Quando percebi, tinha um valor para pagar que já estava acumulando.

As dicas que cortam a conta (e que quase ninguém te conta)

Essas aqui passam batido até por quem mora no UK há anos. Não tem nada a ver com vir de fora; é informação que ninguém junta num lugar só. Vale a leitura de dois minutos:

  • Confira o seu Council Tax band. As faixas de Council Tax foram calculadas em 1991 e nunca mais revistas, então estima-se que mais de 400 mil imóveis na Inglaterra estejam na faixa errada, pagando a mais. Dá para comparar a faixa de imóveis vizinhos parecidos com o seu no site da Valuation Office Agency (VOA) e, se a sua estiver fora da curva, contestar de graça. Quem ganha a contestação recebe de volta o que pagou a mais, e já houve devoluções de milhares de libras. A janela mais tranquila é nos primeiros seis meses depois de se mudar. Um cuidado: contestar pode tanto baixar quanto subir a faixa, então compare bem com os vizinhos antes de abrir o pedido.
  • Peça para pagar o Council Tax em 12 parcelas, não em 10. Por padrão, a cobrança vem em 10 parcelas (de abril a janeiro), com fevereiro e março de folga. Mas na Inglaterra você tem direito de pedir para diluir em 12 parcelas. O total no ano é exatamente o mesmo; o que muda é que cada mês pesa menos no orçamento. É só pedir ao council, normalmente por um formulário online.
  • Não deixe o broadband no piloto automático. Quando o contrato de internet termina, o preço costuma disparar: você sai da promoção e cai na tarifa cheia, muitas vezes sem perceber. Anote a data de fim do contrato e, quando chegar perto, troque de provedor ou ligue para renegociar. Desde janeiro de 2025, contratos novos têm que informar o aumento anual em libras (e não atrelado à inflação), o que facilita comparar antes de assinar.
  • Talvez você não precise de TV Licence. A TV Licence custa £180 por ano a partir de abril de 2026 e é obrigatória para assistir TV ao vivo (qualquer canal) ou usar o BBC iPlayer, mesmo o conteúdo sob demanda. Mas se você só assiste Netflix, Disney+, YouTube e afins sob demanda, sem TV ao vivo e sem iPlayer, não precisa pagar. Vale confirmar antes de assumir que é uma conta obrigatória.
  • Renda baixa? Existem tarifas sociais. Energia, água e internet têm social tariffs e descontos para quem recebe certos benefícios: o Warm Home Discount na energia, a tarifa WaterHelp/WaterSure na água da Thames Water, e planos de banda larga reduzidos como o BT Home Essentials. Nenhum é automático, você precisa pedir. Se você ou alguém da casa recebe Universal Credit ou benefício parecido, vale perguntar a cada fornecedor.

E as duas que já apareceram acima e merecem repetição, porque são as que mais economizam: peça o medidor de água se mora sozinho ou em casa pequena, e peça o desconto de 25% no Council Tax se mora sozinho.

Lista de tarefas para a primeira semana na casa nova

  • Tire foto dos medidores de gás e eletricidade no dia da entrada.
  • Descubra qual é o supplier atual e entre em contato para colocar a conta no seu nome.
  • Compare tarifas no uSwitch ou GoCompare e avalie se vale trocar de fornecedor.
  • Contrate internet antes de se mudar (o prazo de instalação é de 10 a 14 dias na maioria dos casos).
  • Registre seu endereço na Thames Water; se mora sozinho ou em casa pequena, peça um medidor de água (é grátis e costuma baixar a conta).
  • Cadastre-se no council local para o Council Tax, e peça o desconto de 25% se mora sozinho.
  • Confira no site da VOA se o seu Council Tax band está correto (pode render devolução).
  • Confirme se o smart meter do imóvel está sincronizado com o supplier.

Toda essa burocracia parece muita coisa ao mesmo tempo porque, de fato, é. Mas o que diferencia quem chega bem instalado de quem passa as primeiras semanas no escuro (às vezes literalmente) é simplesmente saber que esses passos existem antes de precisar deles. O papel com o número de telefone na bancada da cozinha faz sentido agora.

Se esse post te poupou uma dor de cabeça nas primeiras semanas, me conta aí pelo formulário de contato. Me ajuda a saber o que escrever em seguida.

Procurando onde ficar enquanto resolve tudo isso? O Lista Brasil reúne opções de acomodação para brasileiros em Londres, com pessoas que atendem em português e entendem o que é chegar numa cidade nova. Veja as opções de acomodação em Londres no Lista Brasil.