Trabalhar por conta própria no Reino Unido: o guia para virar sole trader

Lembro até hoje do WhatsApp que recebi de uma amiga, duas semanas depois que ela tinha começado a fazer uns freelas de design por aqui. "Sofia, o cliente quer me pagar. Eu aceito assim, diretamente, ou preciso abrir empresa?" Ela estava em pânico — não porque não soubesse trabalhar, mas porque no Brasil ela era MEI, e aqui ela não tinha ideia de como nada funcionava.

A resposta curta que dei pra ela: sole trader. E foi suficiente pra ela começar. Este guia é a versão longa dessa resposta — para quem está chegando agora, para quem já tem um ou dois clientes e ainda não regularizou nada, e para quem quer entender o sistema antes de dar o primeiro passo.

Antes de assustar com o nome em inglês

Sole trader é simplesmente a pessoa que trabalha por conta própria em seu próprio nome, sem criar uma empresa separada. Você pode usar o seu nome ou um nome comercial ("João Fotografia", "Studio Carla"), mas legalmente você e o negócio são a mesma pessoa. Isso significa que você é responsável pelas dívidas do negócio com o seu patrimônio pessoal, ao contrário de uma limited company (empresa limitada), onde a responsabilidade é limitada ao capital investido.

Para a maioria dos brasileiros que está começando a prestar serviços, a estrutura de sole trader é suficiente. Uma limited company faz sentido quando os lucros são maiores, quando há vantagem fiscal real em pagar-se via dividendos, ou quando clientes corporativos exigem a estrutura jurídica. Isso é conversa para um contador — e no Lista Brasil você encontra contadores brasileiros em Londres que já explicaram essa diferença pra muita gente na mesma situação que a sua.

O visto vem primeiro — confira antes de emitir qualquer nota

Antes de qualquer passo, confirme o que o seu visto permite. Nem todo visto autoriza trabalho por conta própria no Reino Unido:

  • Skilled Worker: em geral, não autoriza trabalho como sole trader ou self-employed. Você está vinculado ao patrocinador. Há exceções pontuais, mas precisa de verificação no seu CoS (Certificate of Sponsorship) e às vezes de autorização adicional.
  • Graduate Visa: permite trabalho por conta própria. Uma das vantagens desse visto é justamente a flexibilidade.
  • Global Talent, Innovator Founder, e similares: geralmente permitem trabalho autônomo.
  • Settled Status / ILR: sem restrições de trabalho.
  • Dependent Visa: depende do visto principal do seu cônjuge. Verifique o seu BRP (ou eVisa) ou consulte o gov.uk com o tipo específico.

A regra básica: leia as condições do seu visto antes de emitir a primeira nota ou assinar o primeiro contrato como autônomo. Se tiver dúvida, este post sobre quando contratar um advogado de imigração em Londres explica quando vale pagar um especialista e quando você provavelmente resolve sozinho.

O registro na HMRC: dez minutos e pronto

Você pode começar a trabalhar como sole trader imediatamente, mas precisa se registrar para o Self Assessment na HMRC se ganhar mais de £1.000 em um ano fiscal (de 6 de abril a 5 de abril). O prazo para registrar é 5 de outubro do ano seguinte ao primeiro ano com renda acima desse limite.

O registro é feito online pelo portal da HMRC e leva cerca de 10 minutos. O que você vai precisar:

  • National Insurance Number (NIN)
  • Endereço no Reino Unido
  • Uma descrição simples do que você faz (não precisa ser elaborada)

Depois do registro, a HMRC vai te enviar um UTR (Unique Taxpayer Reference). Esse número de 10 dígitos é o seu identificador fiscal aqui e vai aparecer em toda comunicação com a HMRC. Guarde-o bem — ele é tão importante quanto o CPF no Brasil, e você vai precisar dele toda vez que lidar com a HMRC.

Quanto você vai pagar de imposto

Como sole trader, você paga dois tipos de contribuição: Income Tax (imposto de renda) e National Insurance. Ambos são calculados sobre o seu lucro, não sobre o total faturado. Ou seja: receita menos despesas legítimas do negócio.

Para o ano fiscal 2026–2027, as alíquotas de Income Tax são:

  • Até £12.570: isento (Personal Allowance)
  • De £12.571 a £50.270: 20% (Basic Rate)
  • De £50.271 a £125.140: 40% (Higher Rate)
  • Acima de £125.140: 45% (Additional Rate)

Tem uma armadilha que muita gente não sabe: quem ganha entre £100.000 e £125.140 paga, na prática, uma alíquota efetiva de 60% nessa faixa. O motivo: a cada £2 de renda acima de £100.000, você perde £1 da sua Personal Allowance (a faixa isenta de £12.570). No pico de £125.140, a isenção some por completo. Isso acontece por causa da combinação da alíquota de 40% com a perda gradual do abatimento — e é um efeito que pega muita gente de surpresa no primeiro Self Assessment com lucros maiores. Se você estiver chegando perto desse número, vale conversar com um contador antes de fechar o ano fiscal.

Para National Insurance (Class 4, que é o que autônomos pagam sobre o lucro):

  • Até £12.570: isento
  • De £12.570 a £50.270: 6%
  • Acima de £50.270: 2%

Parece complexo, mas na prática o Self Assessment calcula tudo isso para você. Você informa as receitas, informa as despesas, e a plataforma calcula quanto deve. O que recomendo é ir guardando em torno de 25–30% de tudo que receber durante o ano. Assim você nunca chega em janeiro sem dinheiro para pagar.

Self Assessment: quando entregar, quando pagar

O Self Assessment é a declaração anual de imposto dos autônomos no UK. Funciona assim:

  • O ano fiscal vai de 6 de abril a 5 de abril do ano seguinte.
  • A declaração em papel tem prazo até 31 de outubro do mesmo ano.
  • A declaração online tem prazo até 31 de janeiro do ano seguinte.
  • O pagamento do imposto calculado vence também em 31 de janeiro.
  • Há ainda um payment on account em 31 de julho: um adiantamento de metade do imposto estimado para o próximo ano, que a HMRC cobra depois do primeiro ciclo completo.

A maioria das pessoas usa a declaração online, que é mais simples e dá mais tempo. O sistema é em inglês, mas é guiado e intuitivo. Se você nunca fez antes, a primeira vez pode assustar um pouco — eu mesma fiquei vinte minutos olhando pra tela sem entender o que a plataforma queria de mim. É aí que um contador ajuda muito, especialmente para garantir que todas as despesas dedutíveis estão declaradas corretamente.

O que dá para deduzir — e onde mora a maior diferença

Esse é o ponto que mais impacta o imposto final. Como sole trader, você pode deduzir do lucro todas as despesas que existem "wholly and exclusively" para o negócio. Alguns exemplos comuns:

  • Equipamentos, ferramentas, software e hardware usado no trabalho
  • Celular e internet (a porcentagem de uso profissional)
  • Transporte para clientes ou trabalho (não o trajeto casa-trabalho fixo)
  • Aluguel de espaço de trabalho ou coworking
  • Marketing, publicidade e materiais
  • Treinamento e cursos diretamente relacionados à atividade
  • Honorários de contador e advogado

Guardar os recibos é obrigatório. O prazo de guarda é 5 anos após o prazo da declaração correspondente. Guardo tudo num app de notas porque planilha eu nunca consegui manter por mais de duas semanas — mas apps como QuickBooks ou FreeAgent também resolvem, se você preferir algo mais estruturado.

O NIN — você pode começar sem ele, mas não por muito tempo

Tecnicamente não — você pode se registrar como sole trader e começar a operar antes de ter o NIN. Mas o NIN é necessário para o registro formal na HMRC e para o Self Assessment. Se você ainda está aguardando o seu número chegar, esse post sobre os primeiros 30 dias em Londres cobre o passo a passo de pedir o NIN. O que não pode é declarar e pagar imposto sem ele.

Sole trader ou limited company?

Quase todo mundo começa como sole trader. A estrutura é simples, o custo de manutenção é zero, e para quem está iniciando ou tem renda anual abaixo de £40.000–£50.000 como autônomo, a diferença fiscal não justifica o custo e a burocracia de manter uma limited company (que exige contas anuais na Companies House, declaração corporativa de imposto, e às vezes um contador dedicado o ano todo).

Quando a limited company começa a fazer sentido: lucros altos onde a alíquota de Corporation Tax (25% para lucros acima de £250.000 em 2026) mais dividendos sai mais barato do que pagar como pessoa física; proteção de responsabilidade para trabalhos com risco maior; ou exigência de clientes corporativos que só contratam pessoa jurídica.

Para essa decisão específica, converse com um contador. É uma hora bem gasta.

Ficou com alguma dúvida que o texto não resolveu? Me avisa aí embaixo — ajuda a saber o que escrever em seguida.

Registrar-se, organizar as finanças e entregar o Self Assessment pela primeira vez é muito mais fácil com alguém que já fez isso antes. No Lista Brasil você encontra contadores brasileiros no Reino Unido que entendem a sua situação do visto, falam português e já ajudaram outros que estavam exatamente onde você está. Veja a lista de contadores e serviços financeiros em Londres e escolha com quem conversar.