
Tem uma frase que soa linda e que, na prática do visto, atrapalha: "a gente se ama, o resto a gente resolve". No visto de cônjuge do UK, o resto é justamente a parte que dá trabalho. O amor o Home Office não avalia. Ele avalia renda, inglês, tempo de relação, e os dias que você passou fora do país, e avalia tudo isso de novo a cada renovação, por cinco anos. Não é um visto que você tira uma vez e esquece: é um contrato com o Estado, com condições que continuam valendo enquanto você está dentro dele.
Se você é casado, está em união estável ou tem uma relação de mais de dois anos com um cidadão britânico ou com alguém que tem residência permanente no UK, o seu caminho para morar aqui tem nome: Family visa, também chamado de visto de família ou visto de cônjuge, regulamentado pelo Appendix FM das regras de imigração britânicas. É uma rota diferente da de quem vem como dependente num visto de trabalho ou estudo. Se o seu caso é esse, o post que você precisa ler é o do visto de dependente. Este aqui é sobre a outra situação: quando o âncora é um britânico ou residente permanente, e você quer viver com ele.
O que esse post cobre: quem pode patrocinar, o que a renda mínima exige, como funciona o inglês (e o que muda a partir de 2027), quanto custa em IHS, e qual é o caminho até a residência permanente. Os fatos que importam, sem drama e sem atalhos.
Quem pode patrocinar o seu visto
Para pedir o Family visa na rota de cônjuge, o seu parceiro precisa ser cidadão britânico, irlandês, ou ter residência permanente no UK. "Residência permanente" aqui significa Indefinite Leave to Remain (ILR), o equivalente a uma cidadania sem passaporte, ou Settled Status pelo esquema de residência europeia. Cidadãos de países da UE com pre-settled status também podem patrocinar, mas a situação deles tem nuances próprias que valem uma consulta específica.
A relação com o patrocinador precisa ser uma das seguintes: casamento ou união civil reconhecida no UK, ou relacionamento de pelo menos dois anos de vida em comum. Existe também a modalidade de noivo (fiancé), mas nesse caso o visto permite que você entre no UK para se casar em até seis meses, depois disso é preciso converter para o visto de cônjuge. Certidões de casamento do Brasil precisam de apostila para serem reconhecidas pelo sistema britânico. Se casou no cartório de BH, peça a apostila antes de qualquer coisa.
Um ponto que às vezes confunde: o patrocinador precisa estar de fato domiciliado no UK. Britânico que mora no Brasil não pode patrocinar um visto para a pessoa viver no UK. Parece óbvio, mas aparece mais do que deveria nas consultas com advogados de imigração.
A renda mínima de £29.000: como funciona e o que pode mudar
Para aplicações feitas a partir de 11 de abril de 2024, o UK exige renda bruta anual combinada de pelo menos £29.000 entre você e seu parceiro. Esse é o número atual. Há uma regra transitória que preserva o antigo limite de £18.600 para quem já estava em extensão de visto iniciada antes dessa data, mas se você está fazendo uma primeira aplicação, o limite é £29.000.
Esse valor pode mudar. Em junho de 2025, o Migration Advisory Committee revisou os limites e sugeriu uma faixa mais baixa, em torno de £23.000 a £25.000. O governo ainda não se pronunciou formalmente sobre uma revisão para baixo. O que está confirmado é que os aumentos planejados anteriormente (para £34.500 e depois £38.700) foram suspensos. Antes de aplicar, verifique o valor vigente em gov.uk/uk-family-visa/proof-income-partner, porque esse número é o que o sistema vai olhar na data da sua aplicação, não o que estava escrito quando você começou a planejar.
A renda pode ser do patrocinador, sua, ou combinada. Conta salário, renda de autônomo, renda de aluguel e outras fontes especificadas nas regras. O que não conta: promessas de emprego, renda de parentes, ou "vou ganhar isso quando chegar lá". O governo quer ver extrato e contracheque dos meses anteriores à aplicação.
E se houver filhos no processo?
As regras preveem valores adicionais por filho, mas há um teto: se o cálculo com os filhos ultrapassar £29.000, você só precisa provar os £29.000. Na prática, para uma primeira aplicação, a renda mínima é £29.000 independente de quantos filhos estejam incluídos no pedido. O cálculo mais complexo de criança por criança aparece em situações específicas de extensão; se for o seu caso, um advogado de imigração é o caminho certo.
O inglês no visto de cônjuge: uma escala longa
O visto de cônjuge tem um requisito de inglês que evolui com o tempo que você passa no UK. Na entrada inicial, o nível exigido é A1 do CEFR. Na primeira extensão do visto, sobe para A2. Na hora de pedir a residência permanente (ILR), o nível exigido é B1. São três testes em momentos diferentes, ao longo de cinco anos.
Aqui vem uma informação que vale registrar agora, antes de qualquer planejamento: uma mudança já anunciada nas regras de imigração eleva o nível de inglês exigido no ILR de B1 para B2, valendo para pedidos feitos a partir de 26 de março de 2027. A mudança é relevante para quem está aplicando hoje, porque cinco anos de rota de cônjuge levam a um pedido de ILR mais ou menos nessa janela. Quem começa agora deve planejar os estudos mirando o B2, não o B1. Vale acompanhar o gov.uk ao longo do caminho, porque as regras de imigração britânicas mudam com frequência, mas a direção dessa já está dada.
O certificado de inglês precisa vir de um provedor aprovado (Secure English Language Test, SELT). A lista de provedores reconhecidos está no gov.uk. Não todo teste de inglês serve para imigração britânica, e isso pega muita gente de surpresa.
A IHS: o que você paga antes de embarcar
Todo visto de cônjuge vem acompanhado da IHS (Immigration Health Surcharge), a taxa de acesso ao NHS. O valor atual é de £1.035 por ano de visto, pago integralmente no momento da aplicação, antes de viajar. Isso significa que, para um visto inicial de dois anos e meio (o período padrão da primeira concessão), você paga algo em torno de £2.587 na frente, antes de saber se o visto foi aprovado.
O pagamento é obrigatório e não é reembolsável em caso de aprovação. O lado positivo é que, uma vez no UK, o acesso ao NHS é imediato e completo, incluindo médico geral, especialistas, emergências e internações, sem custo adicional. Confirme o valor exato antes de aplicar em gov.uk/immigration-health-surcharge, porque esse número já foi reajustado mais de uma vez.
Quanto tempo leva para o visto sair
Para aplicações feitas de fora do UK, o prazo padrão gira em torno de 24 semanas (seis meses) a partir da data da biometria. Existe um serviço expresso com custo adicional que reduz esse prazo, mas o serviço padrão opera nessa janela. Não é um número oficial publicado com garantia, então reserve margem no seu planejamento: se você tem um contrato de emprego a iniciar, uma matrícula escolar ou qualquer outra data-limite, não calcule com a data mínima possível.
O problema maior que as pessoas enfrentam não é o prazo em si, mas a documentação que precisa estar impecável antes de submeter. Uma certidão de casamento sem apostila, um extrato bancário fora do período exigido ou uma foto do tamanho errado pode devolver o processo para o início. Vale revisar tudo com alguém que conheça o processo antes de enviar.
O caminho até a residência permanente
Cinco anos de residência contínua no UK na rota de cônjuge abrem o caminho para o Indefinite Leave to Remain (ILR), a residência permanente britânica. O governo britânico discutiu, em documentos de política de 2025, a possibilidade de estender esse prazo para dez anos em algumas rotas de imigração. Para cônjuges de cidadãos britânicos, essa extensão não se aplica: a rota de cinco anos permanece intacta para esse público específico.
Para pedir o ILR ao final dos cinco anos, as condições são:
- Cinco anos de residência contínua no UK na rota de cônjuge
- Ainda estar em um relacionamento genuíno com o patrocinador
- A renda mínima ter sido mantida ao longo do período
- Aprovação no Life in the UK Test (uma prova sobre história, cultura e instituições britânicas)
- Certificado de inglês no nível B1, subindo para B2 a partir de pedidos feitos depois de 26 de março de 2027
- Ausências do UK de no máximo 180 dias em qualquer período de 12 meses consecutivos
- Acomodação adequada para você e seu parceiro
O limite de 180 dias de ausência é um ponto que pouca gente anota quando assina o visto e que aparece como surpresa cinco anos depois. Se você planeja passar longas temporadas no Brasil regularmente, calcule as ausências com atenção. O UK não te pede para deixar de visitar a família, mas conta os dias.
A documentação de relacionamento: o que o Home Office quer ver
Provar que o relacionamento é genuíno é a parte do processo mais subjetiva, e por isso a que mais gera ansiedade. O governo britânico pede evidências de que a relação é real e contínua: fotos juntos ao longo do tempo, histórico de conversas, comprovantes de visitas, contas conjuntas ou contratos de moradia em ambos os nomes, declarações de testemunhas, correspondências nos dois endereços.
Para relacionamentos em que os dois ainda vivem em países diferentes (o que acontece frequentemente quando o visto ainda está sendo solicitado), o Home Office aceita provas de comunicação regular e de visitas documentadas. Passaportes com carimbos de entrada são evidência; extratos de voo, são evidência; conversas do WhatsApp imprimidas, também são.
Não subestime essa parte. Uma das causas mais comuns de recusa não é renda nem inglês. É a seção de relacionamento chegar ao avaliador sem evidências suficientes de que a relação existe fora do papel. Juntou as provas, organizou por tipo e por data, tem mais do que acha que precisa? Ótimo. Leve mais assim mesmo.
O que fazer enquanto o visto ainda não chegou
Enquanto o processo está em andamento, você continua vivendo a vida. Algumas coisas que vale deixar prontas para quando o visto chegar:
O guia sobre quanto dinheiro guardar antes de vir para o UK tem os cálculos de chegada que a maioria das pessoas subestima, incluindo depósito de aluguel e buffer do primeiro mês. O checklist dos primeiros 30 dias em Londres cobre o que resolver na ordem certa depois que você pisar em solo britânico, do eVisa ao registro no médico. Se há filhos envolvidos no processo, o guia sobre como funciona a escola na Inglaterra vai economizar muita dor de cabeça na hora da matrícula.
Por onde começar: um advogado faz diferença
O Family visa na rota de cônjuge é uma das aplicações de imigração mais auditadas pelo Home Office. Não porque as pessoas mentem, mas porque é uma rota com muitas condições interdependentes (renda, inglês, relacionamento, tempo, ausências), e um erro numa delas pode resultar em recusa que tranca a próxima tentativa por meses.
Dá para fazer sem advogado? Dá. Muita gente faz. Mas os casos em que um advogado fez diferença são proporcionalmente mais frequentes nessa rota do que em quase qualquer outra. Especialmente quando o relacionamento ainda é à distância, quando a renda está no limite, ou quando há um histórico de vistos anteriores que precisa ser explicado.
Se isso te ajudou a entender por onde começa, me conta como está esse processo pra você. Fico curiosa pra saber em que ponto do caminho você está.
O visto de cônjuge tem condições que mudam enquanto você está dentro deles, e um erro de documentação pode atrasar meses de planejamento. O Lista Brasil tem advogados e consultores de imigração em Londres que atendem em português e conhecem essa rota de dentro. Porque algumas burocracias ficam muito mais simples com alguém do seu lado que já viu cada etapa dessa jornada.